***
Recebi esse depoimento e não consegui ler até o final, para não perder minhas noites de sono, mas mesmo assim não da pra achar que tá tudo bem.
Isso tudo deveria mudar! tem que mudar!
mas como meu Deus? como?!
posto esse texto, com a intenção de sensibilizar a todos que tiverem interesse em ler e para quem ama os animais
***
No Inferno, todos vestem roupas
brancas
por Denise Terra
Ainda não amanheceu, estamos diante da chuva e do frio do inverno
gaúcho à espera do ônibus que irá nos guiar até um dos maiores
matadouros
do RS. Somos estudantes de medicina veterinária, cursando uma
disciplina
obrigatória de inspeção de produtos de origem animal. A maioria
de nós
encontra-se eufórica, à espera dos ‘momentos emocionantes’ do
dia. Eu
estou em um canto, sendo observada de perto pela professora e o
coordenador do curso, que ao saberem que sou vegana e ativista,
temem que
eu tenha um colapso na linha de matança.
Entramos no ônibus e seguimos viagem. No caminho, a sensação de
que
as cenas que eu teria que presenciar não seriam diferentes daquelas
filmadas clandestinamente em matadouros ao redor do mundo, e ao
mesmo
tempo o sentimento inequívoco de que estaria prestes a presenciar
uma
série de crimes considerados ‘necessários’ pela humanidade.
Chegamos! Ao abrir a porta do ônibus, já somos tomados pelo
impregnante odor adocicado da matança das aves que ocorre dentro do
estabelecimento. Adentramos o local, após termos vestido roupas
brancas
especiais, e começamos a visita no sentido contrário ao fluxo
produtivo
para evitar contaminações no produto final. Trata-se de um
corredor
estreito, com o pé direito baixo, quase um túnel, que desemboca em
uma luz
amarela intensa, para repelir insetos. Nossa guia, então, abre a
porta e
entramos na parte final da produção. Um sistema complexo de
esteiras e
ganchos, chamados nórias, passam por nossas cabeças, e neles
estão fixadas
pelas patas as carcaças de frango, que pingam incessantemente uma
gordura
fétida acrescida da água hiperclorada utilizada em sua
higienização.
Sob as esteiras estão os funcionários que trabalham em pé, diante
de
uma bancada, na maioria mulheres, que nos olham com curiosidade e
espanto.
A expressão em seus rostos é de uma tristeza marcante, mesclada
pelo
cansaço físico dos movimentos repetitivos que têm que executar
diariamente. O barulho do local é ensurdecedor e, conforme andamos,
o
cheiro forte torna- se cada vez mais desagradável. Em cada bancada,
os
funcionários devem desempenhar uma função, chamadas de linhas de
inspeção,
que são classificadas por letras do alfabeto. Em cada letra ocorre
a
retirada padronizada de determinados órgãos. Um grupo de mulheres,
muitas
sem luvas, trabalham retirando com as mãos, com uma destreza
impressionante, a vesícula biliar das carcaças em processo de
evisceração.
Mais adiante, outra funcionária dedica-se a ‘pescar’ com uma
barra de
metal as carcaças que caem no chão, para destiná-las à graxaria,
onde
serão transformadas em produtos não-comestíveis. Durante a
passagem das
nórias podemos observar que cada uma apresenta uma marcação com
uma cor, o
que serve para fazer a contagem final dos frangos por produtor e
repassar
o lucro referente ao dia.
Uma máquina especial remove toda a carne restante presa nos ossos,
que farão parte da liga que irá compor os caros e adorados
nuggets.
Estamos agora diante dos chillers, equipamentos responsáveis pelo
aquecimento seguido de um resfriamento rápido das carcaças, com a
finalidade de eliminar contaminantes biológicos da carne. Os
chillers nada
mais são do que grandes piscinas vermelhas de sangue com
partículas de
gordura que ficam boiando na superfície, onde os frangos ficam
embebidos.
Olho para o chão e tudo o que vejo é sangue e uma quantidade
absurda
de água que parece verter de todos os lados para a limpeza das
carcaças –
estima-se que para a limpeza de cada carcaça de frango se gaste em
média
35 litros de água! Desvio o olhar para cima e vejo carcaças
sangrentas
passando por minha cabeça, pois estamos nos aproximando do início
do
processo, quando começam a surgir aves com cabeças e penas, que
são
retiradas em uma máquina específica, o que deixa o chão lotado de
penas
brancas.
Nossa guia nos avisa que estamos chegando à linha de matança. Há
uma
diminuição abrupta da luz, onde funcionários trabalham quase no
escuro. Os
índices de depressão dos funcionários que exercem essa função
são
extremamente elevados, devido à insalubridade. Trata-se do início
do
processo de insensibilização. A luz é reduzida com a finalidade
de reduzir
a atividade e o estresse dos animais, que são extremamente
sensíveis a
este estímulo. A esteira segue com as aves penduradas na nória
pela pata,
de cabeça para baixo e agora passam por um túnel, onde sofrem
eletronarcose – isto é, são molhadas e eletrocutadas, de modo
que isso as
atordoe, mas sem causar a morte. As galinhas seguem estáticas pela
esteira, onde logo encontram uma serra, que fica presa a uma
espécie de
roda, e têm suas gargantas cortadas. Nossa guia nos explica que
dependendo
do tamanho das aves a altura da lâmina deve ser ajustada, para
reduzir a
margem de erros no corte mecanizado.
Na sequência, algumas galinhas encontram-se com o pescoço intacto,
enquanto outras, mesmo com a traquéia perfurada, começam a se
mexer,
visivelmente conscientes. Um funcionário tem então como tarefa
cortar o
máximo de pescoços de galinhas que falharam na serra automática,
mas a
esteira passa em uma velocidade assustadora, são muitas aves que
devem
morrer hoje para atender à demanda do mercado, cada vez mais voraz
por
carne de frango. Não há tempo para cortar o pescoço de todas as
intactas,
nem de abreviar o sofrimento daquelas que se debatem. As aves seguem
para
serem escaldadas em água fervendo.
Fomos levados ao local do recebimento das cargas. Vemos caixas e
caixas com mais aves do que espaço interno, em algumas há mais de
dez
animais. São tantas que muitas estão fora das caixas, respiram
ofegantes,
com o bico aberto pelo estresse e pelo medo. Elas estão há dez
horas em
jejum, sendo permitido o abate somente até doze horas após o
início do
jejum. O trabalho segue em ritmo frenético. Uma colega encontra uma
galinha solta e a pega, colocando-a, de forma orgulhosa, em outra
caixa
que segue na esteira rumo à serra automática, emitindo um
comentário de
que estava feliz por ter conseguido pegá-la. Descemos as escadas e
nos
deparamos com o caminhão que as trouxe. Somos instruídos a não
passar
muito perto, pois poderíamos ser bicados pelas aves apinhadas
dentro das
caixas. Nos afastamos um pouco e, em poucos momentos, vemos aves
soltas em
cima do caminhão. Elas tentam voar mas não conseguem, e muitas
acabam
caindo direto no chão. Um funcionário aparece com um gancho e as
junta
pelas patas, como se fosse inços em meio a grama. Violentamente,
ele junta
o máximo de aves que pode pegar com cada mão. As aves estão
penduradas
apenas por uma das patas. Então, alguém lembra que ele poderia ser
mais
delicado e pensar no ‘bemestar’ animal, afinal, deste modo, os
frangos
podem apresentar lesões graves como rupturas e fraturas, o que
compromete
o retorno financeiro pela carcaça.
Somos encaminhados para uma espécie de área de descanso dos
funcionários, onde esperamos pelo veterinário responsável pelo
setor de
suínos para nos acompanhar na visita deste setor. Neste momento uma
funcionária, escorada por mais duas colegas, passa em estado de
choque por
nós. Ela estava sangrando muito na mão. Acabou de sofrer um
acidente de
trabalho. Ela chora muito, a lesão parece grave. Uma colega nossa
se
manifesta rindo, dizendo que não vai comer o frango que ela estava
eviscerando na hora que se machucou! Muitos acham graça e riem.
Mais à
frente vejo uma placa dizendo ‘Estamos a ZERO dias sem acidentes
de
trabalho’ e, logo abaixo, ‘Recorde sem acidentes:83 dias’.
No setor de suínos, passamos pelo mesmo ritual de antissepsia e
adentramos outro corredor estreito com luzes amarelas. Meu nariz
ainda
está impregnado com o cheiro da morte das galinhas e meus ouvidos
ainda
não se acostumaram ao barulho estridente das máquinas, que são
fortemente
audíveis mesmo com o uso de protetores auriculares. Uma porta se
abre, e
atrás do veterinário estão centenas de carcaças de porcos mortos
pendurados pela pata traseira, passando pela esteira. O tamanho do
animal
impressiona. O veterinário nos conta que ali são abatidos 2350
suínos por
dia! Os funcionários agora são em sua grande maioria homens,
muitos
aparentemente se orgulham de sua função, e riem enquanto serram o
abdômen
do animal e retiram as vísceras. Neste setor a esteira anda mais
lentamente, devido ao tamanho do animal e a menor quantidade de
animais
que estão sendo abatidos, quando comparado ao setor de aves. Há
sangue por
tudo.
Para caminhar, temos que desviar das carcaças de 100 kg penduradas
sobre nossas cabeças. Os funcionários realizam seu trabalho em
etapas
específicas da produção, uns arrancam a cabeça, enquanto outros
em outra
parte da sala removem os órgãos internos e outros ainda são
responsáveis
pela identificação de qual cabeça pertence a que corpo, através
de um
sistema de numeração para posterior inspeção de possíveis
lesões que
possam causar danos à saúde pública. Mais à frente vemos uma
impressionante sequência de dezenas de porcos abatidos subindo de
uma
andar ao outro pelo sistema de esteiras. Somos convidados a ir até
o andar
de baixo onde ocorre a sangria. Para chegarmos lá temos que descer
uma
escada helicoidal estreita e escorregadia, devido à presença de
gordura
suína sob nossas botas. No meio desta escada existe uma espécie de
calha
por onde passam os animais mortos, ainda cheios de sangue. Nossa
roupa
está tapada de respingos de sangue.
De repente a temperatura do ambiente muda e começamos a sentir um
calor e um barulho atípicos do lugar. Olho então para frente e
vejo a cena
de uma carcaça pendurada por uma pata passar por uma espécie de
jogo
automatizado de chamas. Durante os poucos segundos que dura o
processo,
podemos ver as carcaças envoltas de uma labareda azul, e sentimos
um forte
cheiro de pêlo queimado. As labaredas são utilizadas para eliminar
os
resquícios de cerdas após a remoção dos pêlos, previamente
removidos por
um sistema de borrachas. Chegamos finalmente na sangria. Os gritos
estrondosos dos animais deveriam fazer qualquer um perceber que não
é
possível existir bem-estar diante da banalização da morte. Ao
invés disso,
muitos riem cada vez que um suíno é grosseiramente empurrado por
um
funcionário, munido de uma vara capaz de disparar choques de baixa
intensidade, em direção a uma espécie de escorregador totalmente
fechado
dos quatro lados. No fim do escorregador está um funcionário de
aparência
assustadora com uma barra com uma espécie de ‘U’ na ponta. O
‘U’ é
encaixado na cabeça do animal e suas pontas ficam em contato com a
região
temporal do crânio, onde um choque de grande intensidade é
disparado. O
animal cai como uma pedra, gerando um barulho característico de seu
corpo
desabando sobre a esteira metálica. Muitos apresentam contrações
involuntárias nas patas, e parecem estar dando coices. Com uma
destreza
impressionante o funcionário seguinte corta a garganta do animal.
Através
do orifício na traquéia jorram litros de sangue. O veterinário
nos explica
que neste momento o animal ainda não está morto, mas que
“conforme as boas
práticas de bem-estar animal, estes devem morrer dentro de no
máximo seis
minutos”, após ocorrer a total eliminação do sangue pelo
bombeamento
cardíaco. Na verdade, o real motivo para que não se aceite a morte
do
animal em tempo superior a este, é evitar que a carcaça fique PSE
– ‘pale,
soft, exsudative’, ‘pálida, friável, exsudativa’, pois este
tipo de
produto não apresenta a qualidade necessária exigida pelo mercado,
e
consequentemente há perda nos lucros.
Somos levados até os currais onde podemos ver os suínos vivos
serem
empurrados para o escorregador. Eles estão em pânico, uns sobem
sobre os
outros, enquanto nos olham fixamente nos olhos com a real expressão
do
horror. Os gritos tornam-se cada vez mais altos e o funcionário os
empurra
com o bastão de choques. Mais atrás está outro funcionário com
uma espécie
de relho feito de sacos plásticos, e o desfere contra o lombo dos
animais
para estes andarem na direção da matança. O veterinário nos
explica que o
relho é feito deste material para não machucar os animais. Isto
constituiria crueldade, algo condenável pelo ‘bem-estar
animal’, valor
muito importante dentro da empresa, e que poderia acarretar em
lesões
cutâneas, afetando negativamente o valor da carcaça.
Por fim, podemos ver os currais de chegada, onde os caminhões
descarregam diariamente os animais para o abate. É neste local que
deve
ser feita a inspeção ante-mortem pelo veterinário da inspetoria.
De acordo
com os preceitos da humanização da morte, todos aqueles animais
que chegam
com fraturas na pata e que não conseguem mais se locomover
adequadamente
devem ser removidos em separado e enviados para a matança imediata,
isto
é, devem ter o direito de ‘furar a fila’ a fim de que o seu
sofrimento
seja abreviado. O veterinário, com muito orgulho, faz questão de
dizer que
“o processo precisa ser feito”! E que já que é necessário,
“é preciso
fazê-lo com dignidade e respeito pelos animais”; Ele ainda afirma
que na
indústria é possível assegurar que estes animais não passam por
sofrimento, e que o seu fim é muito menos cruel do que seria se
fossem
predados por um leão na natureza!
Neste momento, é difícil conter o riso diante da tortuosidade do
raciocínio exposto. Em local algum do mundo teríamos mais de 2000
suínos
sendo predados em cadeia por leões vorazes, sistematicamente, todos
os
dias. Ao que consta, leões não têm a capacidade de raciocínio
semelhante a
um humano. Eles não podem fazer escolhas, simplesmente porque não
têm como
refletir sobre as consequências dos próprios atos. Leões não
planejam
estrategicamente como irão matar suas presas a fim de terem lucro
com
isso, e tampouco consideram normal a condição de degradação de
outros
seres de sua própria espécie em prol da satisfação do luxo de
outros
poucos. Apenas o ser humano é capaz de ter estratégias para a
exploração
máxima de todos aqueles capazes de sofrer sem de fato considerar
isso.
Hoje, muito se fala sobre bem-estar animal, porém trata-se apenas
de um
modo mais refinado de justificar injustificáveis fins.
O bem-estar animal agrada a muitos, pois consegue suavizar o
sofrimento e a culpa daqueles que sustentam a indústria da morte, e
ajudam
a aumentar os lucros através de medidas que teoricamente são
adotadas para
beneficiar os animais, mas que são norteadas pelo aumento da
produtividade
e qualidade do produto final. O limite do ‘bem-estar animal’ vai
até onde
o marketing e o lucro podem vislumbrar. É inacreditável que, para
a grande
maioria, ingenuamente, esse ainda seja visto como o caminho para o
fim do
sofrimento. O sofrimento animal apenas poderá ser reduzido quando
criarmos
coragem para defender o direito dos animais, através da abolição
do
consumo de seus corpos para a satisfação fugaz de nossos desejos
egoístas.
* Denise Terra é formanda em Medicina Veterinária
Fonte: Vanguarda Abolicionista
- http://migre.me/XsUA
Nenhum comentário:
Postar um comentário